Após ameaça de Trump, Erdogan diz que Turquia continuará a combater milícias curdas

ANCARA — A Turquia assegurou nesta segunda-feira que continuará a luta contra uma milícia curdaa apoiada pelos Estados Unidos na Síria apesar das advertências do presidente americano, Donald Trump. No domingo, o líder da Casa Branca ameaçou “devastar” a economia turca caso Ancara ataque os curdos quando Washington retirar suas tropas da Síria.

Faz semanas que a Turquia ameaça lançar nova ofensiva contra as Unidades de Proteção do Povo (YPG), grupo armado curdo considerado “terrorista” por Ancara” e apoiado por Washington na luta contra o Estado Islâmico na Síria. Em dezembro, o presidente americano anunciou a retirada de seus soldados no país após conversa com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. A decisão surpreendeu aliados dos EUA.

Pelo Twitter, neste domingo, Trump destacou que, se o Exército turco atacar as forças curdas após a partida americana da Síria, os Estados Unidos iriam “devastar a Turquia economicamente”. O republicano, por outro lado, pediu que os curdos “não provoquem” Ancara.

Em resposta às declarações de Trump, o porta-voz da Presidência turca, Ibrahim Kalin, escreveu no Twitter que não havia “nenhuma diferença” entre o Estado Islâmico e a milícia das YPG. Acrescentou que o país continuaria “lutando contra todos eles”. A Turquia considera que as YPG são um braço auxiliar do PKK (Partido do Povo do Curdistão), guerrilha curda turca.

“Sr Donald Trump, os terroristas não podem ser nossos parceiros e aliados. A Turquia espera que os EUA honrem sua parceria estratégica e não quer que esta tenha sombra sob a propaganda terrorista. Não há diferença entre Daesh (Estado Islâmico), PKK, PYD e YPG. Nós continuaremos a lutar contra todos eles”, escreveu Kalin, que destacou o compromisso de Ancara de proteger os curdos e sírios, mas não os considerados terroristas.

A Turquia não se sente intimidada pelas ameaças econômicas feitas pelos Estados Unidos em relação a ataques contra a milícia síria curda, afirmou o chanceler turco nesta segunda-feira. O diplomata acrescentou que seu país não é contra a ideia de uma “zona de segurança” na Síria.

— Não seremos intimidados por nenhuma ameaça. As ameaças econômicas não levarão a nada —  disse Mevlüt Cavusoglu, em reação às ameaças de Trump.

As YPG são um dos principais temas de disputa entre Turquia e EUA, dois aliados na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) cujas relações têm se deteriorado desde 2016. Ancara não esconde a intenção de lançar uma ofensiva contra o grupo para evitar a formação na Síria de uma região autônoma curda, que poderia reavivar as aspirações separatistas curdas em seu território.

Antes da retirada das tropas americanas da Síria, os grupos curdos sírios, aliados de Washington na luta contra o grupo extremista Estado Islâmico (EI), tiveram que confiar no regime de Damasco para garantir sua sobrevivência diante das ameaças turcas.

O Exército dos Estados Unidos confirmou que a ordem de retirada das tropas americanas da Síria foi assinada, depois que Trump e Erdogan entraram em acordo para evitar o vácuo de poder na região, principal temor de aliados com o adeus abrupto de Washington. O anúncio da saída de dois mil soldados dos EUA do país devastado pela guerra civil e, por consequência, da batalha contra o Estado Islâmico (EI), 
surpreendeu a coalizão internacional e políticos locais
.

Segundo a rede americana CNN, Erdogan explicou os problemas da presença dos EUA no Iraque e na Síria durante conversa por telefone com Trump, que ficou irritado.

— Ok, é toda sua (a Síria) — respondeu o republicano, segundo a fonte, que teve acesso a uma transcrição detalhada do contato entre os presidentes, em 14 de dezembro.

Na quarta-feira, cinco dias depois, Trump anunciou a decisão de retirar a força militar americana do país. Muitos militares expressaram consternação sobre a ideia de abandonar repentinamente os aliados curdos. Há uma semana, o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, ressaltou que os Estados Unidos condicionariam a saída das tropas a um acordo para proteger os curdos, sem o qual não haveria retirada americana da Síria.

Erdogan disse que Bolton —  que se reuniu com autoridades turcas em Ancara nesta terça-feira, mas deixou a Turquia sem realizar esperadas conversas com o presidente —  “cometeu um erro grave” ao estabelecer condições para o papel militar da Turquia na Síria após a retirada dos EUA.

Em meio a incertezas, os Estados Unidos
começaram a retirar equipamentos militares
da Síria, na última sexta-feira.